Esse texto vai na informalidade mesmo, que não dá pra falar disso com firula.
Vou começar dizendo que se existem mais de 7 bilhões de nós no planeta, existem mais de 7 bilhões de conceitos de amor, mesmo que a maioria tenha uma tendência a acreditar que o amor cristão é o que há.
Então boa sorte pra ti que tenta encontrar o amor sem comunicar o que tu quer com teu crush ou com teus crushes todos.
(Quem quiser pode me acompanhar na leitura do Banquete de Platão que fala um tanto sobre esse conceito.)
Amor é o quê? Tem quem misture amor e paixão. Rita Lee canta que amor sem sexo é amizade e que sexo sem amor é vontade. Tem quem diga que paixão é doença ou um vício. A ciência diz que se apaixonar é uma montanha russa química, como acontece entre mães e filhos. Tem a biologia que toca na perpetuação da espécie. Tem a sociedade que molda o que tu sente. Tem destino? Tem astro? Eu digo que tem muito mistério nesse buraco de minhoca e que eu não tenho a menor pretensão de responder essa pergunta.
Mas vamos questionar?
Tenho escutado bastante que a diferença entre paixão e amor é escolha. Tu não escolhe por quem fica apaixonado, mas escolhe quem quer amar. E talvez tu escolha amar uma pessoa pela qual tu foi apaixonado, mas não é mais. Porque também tem isso de que paixão tem prazo de validade. Vocês já devem ter escutado em algum lugar esse teoria de que tu demora 1/3 do tempo de relação para esquecer tal pessoa. E esses dias uma amiga veio me dizer que a paixão dura em média uns dois anos.
Dito isso, da perspectiva da consciência coletiva, amar é escolher não desistir. É fazer sacrifícios. É ceder e com isso aceitar abrir mão de partes tuas. É se recortar.
Esse sentimento que parece amor romântico e que desemboca geralmente na monogamia, tem bastante adesão na nossa cultura, porque reafirma valores da sociedade capitalista, os quais envolvem as coisas menos românticas possíveis como construção de capital, de imagem e reputação, regras já bem definidas, ou seja, um jogo bem conhecido e sem surpresa que no fim te dá uma fresta de felicidade trazida pela segurança que é proporcionada por um contrato.
Mas se colocamos assim, ninguém compra essa ideia, por isso temos a literatura, a música, os filmes, os exemplos. O amor romântico te diz que tu pode ser especial e que especial significa ser exclusivo. E tu é bombardeado por essa cultura a vida toda. Leva um tempo mesmo pra tu enxergar outros caminhos. E é tão inerente que tu fica nessa dúvida de vez em quando, sem saber se tu quer de fato o que tu acha que quer ou se é só essa memória cultural tomando decisões por ti.
E daí tem as relações não monogâmicas, que também tem uma porção de conflitos, de teatros e achismos e falta de responsabilidade emocional com o outro. Então se tu for um canalha, é mais fácil ainda de exercer teu egoísmo dentro de uma relação não monogâmica. Então olho vivo e faro fino mesmo.
Somado a esses conceitos de amor aos quais, pelo menos num primeiro momento de experimentação, tentamos nos adequar, há a realidade das relações interpessoais dentro das atuais arestas sociais, a modernidade líquida de Bauman, a incapacidade de nos relacionarmos uns com os outros de uma forma humana, que significa basicamente ter uma certa empatia, levar em conta o outro também e a individualidade de cada um.
Aqui começa a complicar, porque num mundo sem conceito, sem maniqueísmo e tudo, até onde exatamente as liberdades individuais podem ir? Quais são os limites dentro de uma geração que quer romper paradigmas? E mais importante, até onde tu tá disposto a ir pela satisfação de te enxergar livre?
Porque a consciência do que é imposto não necessariamente te leva ao desconhecido ou à criação de um modelo próprio. Tu pode no fim escolher o que já tá aí, pronto. Tu pode saber disso tudo e ainda escolher ter uma relação monogâmica, morar junto, ter filhos, tu pode ser feliz assim. A felicidade também tem isso de ser morna. Talvez essa estrutura fechada traga de fato um maior conforto, uma paz de espírito, um sossego, um amor tranquilo com sabor de fruta mordida.
Eu costumo falar que ser livre não tem nada a ver com ser feliz. Que a liberdade é uma coisa de louco e que tu tem que ter um tipo de fé nela, enxergar como um propósito de vida. Precisa ser forte, ter coragem e buscar correspondências todo dia, mesmo que raramente elas apareçam.
Amor é então, como o escutamos diariamente, uma construção da sociedade, uma transação, uma troca de interesses, que pode envolver moedas materiais e/ou emocionais.
Paixão é desejo, é química. Tem umas teorias aí que tentam explicar porque e por quem ela acontece. Tu pode romantizar a paixão também. Dizer que é de outras vidas, que é coisa dos astros, que é destino. E na verdade, pode até ser, ninguém explica.
Então nós falamos demais sobre amor e pouco sobre desejo. Numa culpa cristã de sentir que tudo que é da natureza humana é o mal. Que o nu, que o sexo, que a vontade são promiscuidades. Então quem é humano é anormal, é sujo, é infantil, é superficial. Há uma condenação moralista de tudo que se relaciona com o querer humano. É a dicotomia do sublime e do grotesco gritando. É preterir o que é da nossa natureza.
Então vale demais perguntar o que queremos.
O que tu quer de um encontro? Do relacionar-se com o outro.
Desse teu querer, o que é uma vontade tua?
Mas vai levar um tempo, sabe? A vida toda na real.
Quando fico na dúvida, sigo uma coisa que Hemingway disse, que moral é o que faz tu te sentir bem e imoral é o que faz tu te sentir mal depois de fazer. E penso que o que te faz bem e o que te faz mal também é passível de mudança.
As coisas mudam e as pessoas mudam e as tuas vontades também não são permanentes. A única resposta permanente que eu mesma encontrei é que tudo é impermanente, e é por isso que também tenho bastante respeito pela filosofia oriental. Eles têm uma sabedoria que te liberta de buscar essas certezas, sabe?
Mas é preciso ser forte pra viver livre dentro de uma estrutura que te diz que tu não pode envelhecer sozinho, saber que esse é um risco, mesmo com toda a rede, a família, os amigos, os amores soltos. Poucas pessoas vão pensar assim e tu não vai ser prioridade na vida de qualquer pessoa que seja. Então o exercício é o da autossuficiência mesmo. De te sentir bem com a ideia de não ter com quem contar, o que na real é difícil de acontecer, se tu cria essa relação de comunidade, se tu desenvolve tuas relações com verdade, porém é importante imaginar esse pior cenário possível e perceber se tu consegue bancar isso.
Da minha vivência eu te aconselho a experimentar de uma forma não linear as coisas. O tempo é uma ilusão, tudo é cíclico. As possibilidades são infinitas. Faz o que te dá vontade de viver agora. Pois se o amor da vida é uma invenção, os momentos de amor não são.