Tu

Conheci uma pessoa, que parecia uma coisa e era outra. Dentre as particularidades todas do eu e do outro, alguns muito mal-entendidos.
Penso hoje que mais do que quiseste me enganar, me enganei eu a mim mesma.
Na noite em que te conheci, um sorriso de quem se banca, como quem aprendeu a se desviar de todo e qualquer obstáculo que bote em risco a soberania de fingir não saber o que se quer.
Eu devia saber, ou melhor, devia ter deixado de lado essa minha mania ultrapassada de me fazer de besta, de ignorar sinais desenhados bem na frente da minha cara.
De qualquer forma segui a gosto de tua vontade, que de longe bem se parecia com a minha.
Estar contigo era como estar constantemente naquele restaurante espanhol tomando Sangria embaixo daquela luz vermelha que traz conforto para quem rumina assuntos da carne.
Penso também que tu enxergaste as cores melhor do que eu. Talvez bem fosse aquele fundo verde usado para produzir o cenário que a gente bem entende. Faz sentido, que sou eu que sempre esqueço os óculos na mesa de casa.
Ainda assim nos distraímos por um tempo. Ao buscar na memória me lembro de uma certa correspondência, lá no início, da possibilidade do teu pulo, que não chegou a se concretizar. Entendo que tu sentias que seria como pular numa piscina vazia.
Me retirei de cena. É engraçado como isso pouco importava, como pouco importou e ainda.
Talvez vocês homens tenham um olfato apurado para o tédio, inclusive para o tédio alheio que brota com as cristalizações das relações sem sentido. Talvez, deixo a vocês o privilégio da dúvida.
Depois foi diferente, de ti uma agressividade pós-moderna de quem pouco se importa. De mim a ideia de que talvez eu não quisesse me importar também. Nesse tempo era certo que tua piscina também era rasa. Cansei. Senti vontade de água profunda.
É o que costumo dizer das paixões que passeiam no bonde e que descem tão logo sentem o cheiro de café da janela do desconhecido. É difícil não querer descer antes do ponto final. Te entendo, inclusive nunca chego no ponto final de pessoa alguma.
(Meu terapeuta me disse que não suporto ser especial.)
Agora poderia eu dar crédito aos astros, às sortes e possíveis vontades subconscientes nossas. Mas não te conheço. Não nos conhecemos, devo admitir. Nossa história é como um museu vazio, que busquei preencher com os rascunhos amassados pela minha incapacidade de criar algo que valha mais do que o limbo.
Não sou mais apaixonada por ti. Digo isso com uma profunda frustração. Para quem não admite ser especial, estar apaixonado é o mais perto que chegamos de sentir alguma coisa. E é vazio admitir o vazio, não sobre nada pra nos distrair de nós. A piscina continua vazia e não vivemos mais na expectativa de ver alguém pular e pintar o fundo de vermelho.

Eu decidi que não quero mais ser uma piscina. Acho que uma banheira é tudo que eu posso ser, só tenho água suficiente pra quem se contenta com uma banheira. Pensando bem, até prefiro que seja assim, uma pessoa de cada vez. Ela poderia ficar horas aqui, sem ser incomodada com pulos de gente louca.

Coloquei alecrim na água. Não me interessam mais teus pés molhados de lodo.




Vórtex

Janela. A luz vermelha do alarme. A água do mar tranquila. A praça vazia e iluminada.
Através das janelas a solidão sem culpa, as luzes das telas. As sombras são bonitas de madrugada, elas não têm culpa de ser.
A essa hora não há vontade progressista, não há desejo de sobrevivência. Apenas esse recorte do tempo, quando a imperfeição é permitida e as fraquezas não são fraquezas.

Me faz sentir saudade de algumas pessoas, perdidas no tempo. Pessoas pras quais me esqueci de olhar com atenção, enquanto me distraía com embalagens mais coloridas. Pessoas cujas memórias vêm acompanhadas de sorrisos sutis, desses que abrigam uma satisfação completa.

É engraçado como as melhores experiências são compartilhadas com os coadjuvantes. Um pedaço de pizza de madrugada num boteco qualquer de São Paulo. Um dança colada no centro acadêmico da Universidade. Uma conversa no ônibus. Um olhar no metrô. A foto escura não revelada da câmera analógica. O sorriso que quis beijar. A dança surpresa na esquina da Vergueiro. A sororidade dos banheiros dos festivais. As companhias eternas de um dia só. As transições e os erros. A vulnerabilidade das pessoas que ainda insistem em ser reais.
Trocaria todos os beijos de cinema pelo infinito das cenas cortadas com quem não importa.

A vida é boa onde ninguém olha.




Amor é o quê?

Esse texto vai na informalidade mesmo, que não dá pra falar disso com firula.
Vou começar dizendo que se existem mais de 7 bilhões de nós no planeta, existem mais de 7 bilhões de conceitos de amor, mesmo que a maioria tenha uma tendência a acreditar que o amor cristão é o que há.
Então boa sorte pra ti que tenta encontrar o amor sem comunicar o que tu quer com teu crush ou com teus crushes todos.

(Quem quiser pode me acompanhar na leitura do Banquete de Platão que fala um tanto sobre esse conceito.)

Amor é o quê? Tem quem misture amor e paixão. Rita Lee canta que amor sem sexo é amizade e que sexo sem amor é vontade. Tem quem diga que paixão é doença ou um vício. A ciência diz que se apaixonar é uma montanha russa química, como acontece entre mães e filhos. Tem a biologia que toca na perpetuação da espécie. Tem a sociedade que molda o que tu sente. Tem destino? Tem astro? Eu digo que tem muito mistério nesse buraco de minhoca e que eu não tenho a menor pretensão de responder essa pergunta.

Mas vamos questionar?

Tenho escutado bastante que a diferença entre paixão e amor é escolha. Tu não escolhe por quem fica apaixonado, mas escolhe quem quer amar. E talvez tu escolha amar uma pessoa pela qual tu foi apaixonado, mas não é mais. Porque também tem isso de que paixão tem prazo de validade. Vocês já devem ter escutado em algum lugar esse teoria de que tu demora 1/3 do tempo de relação para esquecer tal pessoa. E esses dias uma amiga veio me dizer que a paixão dura em média uns dois anos.
Dito isso, da perspectiva da consciência coletiva, amar é escolher não desistir. É fazer sacrifícios. É ceder e com isso aceitar abrir mão de partes tuas. É se recortar.
Esse sentimento que parece amor romântico e que desemboca geralmente na monogamia, tem bastante adesão na nossa cultura, porque reafirma valores da sociedade capitalista, os quais envolvem as coisas menos românticas possíveis como construção de capital, de imagem e reputação, regras já bem definidas, ou seja, um jogo bem conhecido e sem surpresa que no fim te dá uma fresta de felicidade trazida pela segurança que é proporcionada por um contrato.
Mas se colocamos assim, ninguém compra essa ideia, por isso temos a literatura, a música, os filmes, os exemplos. O amor romântico te diz que tu pode ser especial e que especial significa ser exclusivo. E tu é bombardeado por essa cultura a vida toda. Leva um tempo mesmo pra tu enxergar outros caminhos. E é tão inerente que tu fica nessa dúvida de vez em quando, sem saber se tu quer de fato o que tu acha que quer ou se é só essa memória cultural tomando decisões por ti.
E daí tem as relações não monogâmicas, que também tem uma porção de conflitos, de teatros e achismos e falta de responsabilidade emocional com o outro. Então se tu for um canalha, é mais fácil ainda de exercer teu egoísmo dentro de uma relação não monogâmica. Então olho vivo e faro fino mesmo.
Somado a esses conceitos de amor aos quais, pelo menos num primeiro momento de experimentação, tentamos nos adequar, há a realidade das relações interpessoais dentro das atuais arestas sociais, a modernidade líquida de Bauman, a incapacidade de nos relacionarmos uns com os outros de uma forma humana, que significa basicamente ter uma certa empatia, levar em conta o outro também e a individualidade de cada um.
Aqui começa a complicar, porque num mundo sem conceito, sem maniqueísmo e tudo, até onde exatamente as liberdades individuais podem ir? Quais são os limites dentro de uma geração que quer romper paradigmas? E mais importante, até onde tu tá disposto a ir pela satisfação de te enxergar livre?
Porque a consciência do que é imposto não necessariamente te leva ao desconhecido ou à criação de um modelo próprio. Tu pode no fim escolher o que já tá aí, pronto. Tu pode saber disso tudo e ainda escolher ter uma relação monogâmica, morar junto, ter filhos, tu pode ser feliz assim. A felicidade também tem isso de ser morna. Talvez essa estrutura fechada traga de fato um maior conforto, uma paz de espírito, um sossego, um amor tranquilo com sabor de fruta mordida.
Eu costumo falar que ser livre não tem nada a ver com ser feliz. Que a liberdade é uma coisa de louco e que tu tem que ter um tipo de fé nela, enxergar como um propósito de vida. Precisa ser forte, ter coragem e buscar correspondências todo dia, mesmo que raramente elas apareçam.

Amor é então, como o escutamos diariamente, uma construção da sociedade, uma transação, uma troca de interesses, que pode envolver moedas materiais e/ou emocionais.
Paixão é desejo, é química. Tem umas teorias aí que tentam explicar porque e por quem ela acontece. Tu pode romantizar a paixão também. Dizer que é de outras vidas, que é coisa dos astros, que é destino. E na verdade, pode até ser, ninguém explica.
Então nós falamos demais sobre amor e pouco sobre desejo. Numa culpa cristã de sentir que tudo que é da natureza humana é o mal. Que o nu, que o sexo, que a vontade são promiscuidades. Então quem é humano é anormal, é sujo, é infantil, é superficial. Há uma condenação moralista de tudo que se relaciona com o querer humano. É a dicotomia do sublime e do grotesco gritando. É preterir o que é da nossa natureza.

Então vale demais perguntar o que queremos.
O que tu quer de um encontro? Do relacionar-se com o outro.
Desse teu querer, o que é uma vontade tua?
Mas vai levar um tempo, sabe? A vida toda na real.
Quando fico na dúvida, sigo uma coisa que Hemingway disse, que moral é o que faz tu te sentir bem e imoral é o que faz tu te sentir mal depois de fazer. E penso que o que te faz bem e o que te faz mal também é passível de mudança.
As coisas mudam e as pessoas mudam e as tuas vontades também não são permanentes. A única resposta permanente que eu mesma encontrei é que tudo é impermanente, e é por isso que também tenho bastante respeito pela filosofia oriental. Eles têm uma sabedoria que te liberta de buscar essas certezas, sabe?

Mas é preciso ser forte pra viver livre dentro de uma estrutura que te diz que tu não pode envelhecer sozinho, saber que esse é um risco, mesmo com toda a rede, a família, os amigos, os amores soltos. Poucas pessoas vão pensar assim e tu não vai ser prioridade na vida de qualquer pessoa que seja. Então o exercício é o da autossuficiência mesmo. De te sentir bem com a ideia de não ter com quem contar, o que na real é difícil de acontecer, se tu cria essa relação de comunidade, se tu desenvolve tuas relações com verdade, porém é importante imaginar esse pior cenário possível e perceber se tu consegue bancar isso.

Da minha vivência eu te aconselho a experimentar de uma forma não linear as coisas. O tempo é uma ilusão, tudo é cíclico. As possibilidades são infinitas. Faz o que te dá vontade de viver agora. Pois se o amor da vida é uma invenção, os momentos de amor não são.






Estruturas internas e suas rupturas

Por que falar de si é falar de nós?

O exercício do diálogo se dá pela ânsia de trazer a consciência alcançada a partir da experimentação de nós, das coisas e das ideias à luz. Aquilo que é dito em coletivo é como força primária uma tentativa de estabelecer uma persona, como quem se autoafirma na pretensão de se fazer visto como se é, ou como se tem vontade de ser.
A autoafirmação e o isolamento são dois sintomas opostos de um mesmo conflito entre as estruturas interna e externa do ser. Autoafirma-se quem quer provar a própria natureza, isola-se quem quer fugir da necessidade de se provar. Autoafirma-se quem espera no subconsciente a legitimação do outro, numa possível tentativa de suprir a necessidade humana de se sentir desejado. Isola-se quem abnega o desejo, quem tem pretensões de autonomia supra-humanas.
(eu quase concordo com Freud e encerro o mundo nas muralhas do sexo)
Mas e se fosse dada menos importância ao reconhecimento de si e mais relevância ao questionamento do que se é?
Quem és tu? Quem sou eu? Quem somos nós quando somos juntos?
Se a impermanência é a constante, como poderíamos ser?
Seríamos nós nossas funções e memórias? Nossas vivências, genéticas, acasos, classes, ambientes? Somos realmente a junção dessas coisas arbitrárias que nos trouxeram uns aos outros nesse espaço-tempo específico? Ou não somos? Ou seriam nossas contradições as únicas verdades possíveis? Ou seriam nossas dúvidas a única vida suportável de ser vivida?
Afirmo pois, do alto de minha incapacidade de afirmar qualquer coisa, que somos o agora. Ser é então questão de tempo, não de matéria. Isso explica o exílio das relações significativas, porém não normativas, que não encontram lugar na estrutura social das coisas. Afinal, o que importa não é passível de categorização, pois quando categorizado perde um tanto de significação.
Viver em plenitude é viver dentro de uma nuvem amorfa, sem nunca encontrarmos respostas para as perguntas que importam. O corpo é uma prisão, o mundo é uma prisão, a liberdade existe somente no plano da mente. A única coisa que pode nos tornar livres é a desassociação.