Estruturas internas e suas rupturas

Por que falar de si é falar de nós?

O exercício do diálogo se dá pela ânsia de trazer a consciência alcançada a partir da experimentação de nós, das coisas e das ideias à luz. Aquilo que é dito em coletivo é como força primária uma tentativa de estabelecer uma persona, como quem se autoafirma na pretensão de se fazer visto como se é, ou como se tem vontade de ser.
A autoafirmação e o isolamento são dois sintomas opostos de um mesmo conflito entre as estruturas interna e externa do ser. Autoafirma-se quem quer provar a própria natureza, isola-se quem quer fugir da necessidade de se provar. Autoafirma-se quem espera no subconsciente a legitimação do outro, numa possível tentativa de suprir a necessidade humana de se sentir desejado. Isola-se quem abnega o desejo, quem tem pretensões de autonomia supra-humanas.
(eu quase concordo com Freud e encerro o mundo nas muralhas do sexo)
Mas e se fosse dada menos importância ao reconhecimento de si e mais relevância ao questionamento do que se é?
Quem és tu? Quem sou eu? Quem somos nós quando somos juntos?
Se a impermanência é a constante, como poderíamos ser?
Seríamos nós nossas funções e memórias? Nossas vivências, genéticas, acasos, classes, ambientes? Somos realmente a junção dessas coisas arbitrárias que nos trouxeram uns aos outros nesse espaço-tempo específico? Ou não somos? Ou seriam nossas contradições as únicas verdades possíveis? Ou seriam nossas dúvidas a única vida suportável de ser vivida?
Afirmo pois, do alto de minha incapacidade de afirmar qualquer coisa, que somos o agora. Ser é então questão de tempo, não de matéria. Isso explica o exílio das relações significativas, porém não normativas, que não encontram lugar na estrutura social das coisas. Afinal, o que importa não é passível de categorização, pois quando categorizado perde um tanto de significação.
Viver em plenitude é viver dentro de uma nuvem amorfa, sem nunca encontrarmos respostas para as perguntas que importam. O corpo é uma prisão, o mundo é uma prisão, a liberdade existe somente no plano da mente. A única coisa que pode nos tornar livres é a desassociação.