Vórtex

Janela. A luz vermelha do alarme. A água do mar tranquila. A praça vazia e iluminada.
Através das janelas a solidão sem culpa, as luzes das telas. As sombras são bonitas de madrugada, elas não têm culpa de ser.
A essa hora não há vontade progressista, não há desejo de sobrevivência. Apenas esse recorte do tempo, quando a imperfeição é permitida e as fraquezas não são fraquezas.

Me faz sentir saudade de algumas pessoas, perdidas no tempo. Pessoas pras quais me esqueci de olhar com atenção, enquanto me distraía com embalagens mais coloridas. Pessoas cujas memórias vêm acompanhadas de sorrisos sutis, desses que abrigam uma satisfação completa.

É engraçado como as melhores experiências são compartilhadas com os coadjuvantes. Um pedaço de pizza de madrugada num boteco qualquer de São Paulo. Um dança colada no centro acadêmico da Universidade. Uma conversa no ônibus. Um olhar no metrô. A foto escura não revelada da câmera analógica. O sorriso que quis beijar. A dança surpresa na esquina da Vergueiro. A sororidade dos banheiros dos festivais. As companhias eternas de um dia só. As transições e os erros. A vulnerabilidade das pessoas que ainda insistem em ser reais.
Trocaria todos os beijos de cinema pelo infinito das cenas cortadas com quem não importa.

A vida é boa onde ninguém olha.




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